De tempos em tempos, minha mente faz emergir, por sei lá que razão, acontecimentos de minha infância que eu já julgava completamente esquecidos. Obviamente, o fato de essas reminiscências ressurgirem apenas como vislumbres torna o relato a seguir com pouca acurácia em relação a datas; no entanto, quando recordo aqueles momentos, as sensações que percorrem meu corpo são as mesmas de então.
Lá se vão mais de vinte anos – eu devia ter cinco ou seis anos na época – mas o local e o contexto ainda estão bem vívidos na memória. Eu morava com a minha avó materna, uma sertaneja para quem a religião sempre teve um papel central. Contudo, seu fervor religioso nem de longe a tornava uma senhora carrancuda ou carola. Seu catolicismo era (e ainda é) daquele tipo bem peculiar das pessoas do interior do Nordeste: há muito mais fé do que dogma e muito mais compaixão do que conservadorismo tacanho. Sendo assim, na Juazeiro do Norte dos anos 1990, as idas à igreja constituíam o principal evento social e – por que não? – de entretenimento.
Em uma destas visitas ao Santuário de São Francisco, um dos maiores da cidade e que dá nome ao bairro em que vivíamos (Franciscanos), minha bisavó, com seus oitenta e poucos anos bem vividos, nos acompanhava. Quando ela vinha do sítio trazendo alguma de minhas primas tudo virava festa! Além das matriarcas e da minha prima, um dos irmãos da minha mãe, seis anos mais velho que eu, também estava conosco.
Foi neste dia que tive meu primeiro contato com o aspecto supersticioso do catolicismo nordestino. Em Juazeiro, nos arredores das igrejas, é possível encontrar facilmente gente vendendo todo tipo de artigo religioso. São miniaturas de estátuas do Padre Cícero, em gesso ou madeira, quadros com imagens de santos e do Sagrado Coração de Jesus, e as famosas fitinhas multicoloridas com a inscrição “Estive em Juazeiro do norte e lembrei de você” semelhantes àquelas do Senhor do Bonfim que anos depois conheci na Bahia.
Reza a lenda que se você amarrar uma dessas fitas no punho, fizer três pedidos e não a tirar até que se parta sozinha, seus desejos serão realizados.
Naquela manhã, minha avó comprou algumas para nós e me confessou adicionando mais uma superstição à lenda: se você fizer os três pedidos dentro da igreja, eles terão muito mais força.
Minha avó era a principal referência da minha meninice. Tudo o que ela falava era como lei e eu acreditava piamente. Segui seu conselho: adentrei a igreja e me dirigi à estátua de um dos santos do lado esquerdo do santuário. Não me recordo bem se era São Francisco, Jesus ou a Virgem Maria; minha memória falha neste ponto e vocês hão de me perdoar. Ajoelhei-me. O que acontece agora entra na alçada do fantástico, do mágico. Comecei a fazer meus pedidos, de olhos fechados, EM PENSAMENTO, mas, para minha surpresa, imediatamente uma voz grave começou a soar no teto da Igreja recitando EXATAMENTE as mesmas palavras que passavam pela minha mente. Naquele instante, pensei: só pode ser o próprio Deus ouvindo minhas preces. Um sentimento de felicidade me invadiu, pois tive a certeza de que meus pedidos seriam atendidos.
Hoje, já crescido, a fantasia há muito me abandonou. Acredito que eu possa, por conta do fervor da minha fé, ter tido uma alucinação. Mais plausível é que tenha ouvido a voz do sacristão nos alto-falantes anunciando algo sem importância. Claro que não comentei o ocorrido com ninguém, porque era um segredo entre Deus e eu! É proibido contar seus pedidos a outra pessoa sob pena de que a divindade os recuse sumariamente pela sua indiscrição.
Levantei-me e segui em direção à saída principal do santuário. Eu já tinha percebido que uma mulher de meia-idade, com um pano amarrado na cabeça e um tanto estridente, vinha me observando lá dentro da igreja. Ela se aproxima, toma minha mão e começa a gritar que sou seu filho e que estão querendo tirar-me dela.
Extremamente assustado, com algum esforço consegui me desvencilhar e ouvi minha avó dizer para mim, meu tio e minha prima: “Corram!”. Desesperado e com o coração palpitando mais rápido e forte do que nunca, corri o mais rápido que podia. De vez em quando olhava para trás aterrorizado pela mulher. Via aquele pano colorido em sua cabeça ficando cada vez mais distante enquanto eu me aproximava da casa de minha mãe.
Quando chegamos, ainda ofegante, o alívio tomou conta de mim. No entanto, a apreensão persistia. Eu não queria ser levado por aquela mulher e nunca mais ver minha família! Poucos instantes depois, vovó e ‘bisa’ chegam e dizem que com muito custo conseguiram despistá-la. Por ora, eu estava salvo!
As semanas se passaram e a fitinha foi ficando gasta no meu pulso até que um dia se partiu. Sim, meus desejos se realizaram, mas, por um acordo com Deus, não posso contá-los. Dá azar!
terça-feira, 21 de maio de 2019
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
Hamilton- An American Musical ou The hottest show in town
“Hamilton — An American Musical” tem sido o musical mais aclamado, premiado e concorrido dos EUA nos últimos dois anos. Conseguir um ingresso para o espetáculo exige paciência e perseverança, já que os tickets se esgotam com meses de antecedência.
Há algum tempo vinha acalentando o desejo de conferir o que esta peça tinha de tão especial para ser capaz de atrair o então presidente Obama e o então vice-presidente eleito Mike Pence, dentre tantas outras personalidades proeminentes da cultura e política norte-americanas. O enredo aborda a vida de Alexander Hamilton, um dos fundadores dos EUA, não menos importante, porém bem menos louvado que George Washington e Thomas Jefferson, por exemplo.
Estive na hora e no lugar certos para conseguir meu ingresso. Um casal de idosos não poderia comparecer ao show que havia reservado desde março e resolveu repassar seus tickets. Ao entrar no Richard Rogers Theatre senti uma sensação de extrema felicidade como quando um sonho se torna realidade, algo que você considerava distante, mas que estava ali ao seu alcance. O sentimento era compartilhado por muitos que estavam ali. A pessoa que estava sentada ao meu lado exclamou pouco antes de começar o show: “I can’t believe I’m here!”
Diferente de outros shows da Broadway, “Hamilton” não costuma atrair muitos estrangeiros. Por se tratar de um episódio específico da história norte-americana e retratar uma figura pouco conhecida no restante do mundo, o público é essencialmente local. E várias pessoas viajam de outros estados para NY a fim de conferir o musical!
“Hamilton” é revolucionário por diversos motivos. Os principais personagens são interpretados por atores latinos e negros, inclusive as figuras históricas como Jefferson, Washington e o próprio Hamilton, todos eles brancos. O musical é inteiramente cantado, sem diálogos falados, sendo o hip-hop o ritmo da maior parte das composições, todas elas originais. Cenário, iluminação e figurino são impecáveis.
Brilhante e arrebatador são adjetivos que não retratam com exatidão o que pode ser dito de “Hamilton”.
Saí do teatro exultante e grato por ter vivido uma experiência marcante e inesquecível.
PS: Após o show, descobri que o ator que interpreta Hamilton, Javier Muñoz, já venceu um câncer e é HIV-positivo. É incrível ver seu vigor para cantar, dançar e interpretar por quase três horas. Mais uma história inspiradora de superação.
Há algum tempo vinha acalentando o desejo de conferir o que esta peça tinha de tão especial para ser capaz de atrair o então presidente Obama e o então vice-presidente eleito Mike Pence, dentre tantas outras personalidades proeminentes da cultura e política norte-americanas. O enredo aborda a vida de Alexander Hamilton, um dos fundadores dos EUA, não menos importante, porém bem menos louvado que George Washington e Thomas Jefferson, por exemplo.
Estive na hora e no lugar certos para conseguir meu ingresso. Um casal de idosos não poderia comparecer ao show que havia reservado desde março e resolveu repassar seus tickets. Ao entrar no Richard Rogers Theatre senti uma sensação de extrema felicidade como quando um sonho se torna realidade, algo que você considerava distante, mas que estava ali ao seu alcance. O sentimento era compartilhado por muitos que estavam ali. A pessoa que estava sentada ao meu lado exclamou pouco antes de começar o show: “I can’t believe I’m here!”
Diferente de outros shows da Broadway, “Hamilton” não costuma atrair muitos estrangeiros. Por se tratar de um episódio específico da história norte-americana e retratar uma figura pouco conhecida no restante do mundo, o público é essencialmente local. E várias pessoas viajam de outros estados para NY a fim de conferir o musical!
“Hamilton” é revolucionário por diversos motivos. Os principais personagens são interpretados por atores latinos e negros, inclusive as figuras históricas como Jefferson, Washington e o próprio Hamilton, todos eles brancos. O musical é inteiramente cantado, sem diálogos falados, sendo o hip-hop o ritmo da maior parte das composições, todas elas originais. Cenário, iluminação e figurino são impecáveis.
Brilhante e arrebatador são adjetivos que não retratam com exatidão o que pode ser dito de “Hamilton”.
Saí do teatro exultante e grato por ter vivido uma experiência marcante e inesquecível.
PS: Após o show, descobri que o ator que interpreta Hamilton, Javier Muñoz, já venceu um câncer e é HIV-positivo. É incrível ver seu vigor para cantar, dançar e interpretar por quase três horas. Mais uma história inspiradora de superação.
Ser criança
Hoje fui acompanhar minha irmã caçula numa gincana cultural em sua escola. Havia dezenas de crianças do ensino fundamental I, que devem ter entre 7 e 10 anos de idade.
Num momento em que o ódio que perpassa as relações entre os adultos nos deprime, foi revigorante ter novamente contato com a doçura infantil. Percebi um forte sentimento de cooperação entre os alunos da mesma sala, com o objetivo comum de alcançar a vitória, e, apesar da competição entre as diversas turmas, ao final, todos (vencedores e perdedores) confraternizaram. Era nítida a alegria em seus olhares por poderem compartilhar juntos um momento de êxtase e felicidade como aquele.
Depois desse momento, tive a certeza de que temos muito a aprender com estes pequenos. É preciso evitar dar exemplos de rancor, ódio, intolerância e preconceito. Agir assim não é apenas a coisa certa a se fazer, mas nosso dever em relação a eles.
Fiquei pensando como será o mundo que deixaremos para estas novas gerações. Seria extremamente injusto legar a elas um meio ambiente inóspito e uma sociedade em que as relações humanas não são nada menos que envenenadas. Espero que a rota trilhada por nós de uns tempos pra cá seja alterada a tempo e estas crianças possam viver num mundo melhor do que aquele em que viveram seus pais e avós.
Num momento em que o ódio que perpassa as relações entre os adultos nos deprime, foi revigorante ter novamente contato com a doçura infantil. Percebi um forte sentimento de cooperação entre os alunos da mesma sala, com o objetivo comum de alcançar a vitória, e, apesar da competição entre as diversas turmas, ao final, todos (vencedores e perdedores) confraternizaram. Era nítida a alegria em seus olhares por poderem compartilhar juntos um momento de êxtase e felicidade como aquele.
Depois desse momento, tive a certeza de que temos muito a aprender com estes pequenos. É preciso evitar dar exemplos de rancor, ódio, intolerância e preconceito. Agir assim não é apenas a coisa certa a se fazer, mas nosso dever em relação a eles.
Fiquei pensando como será o mundo que deixaremos para estas novas gerações. Seria extremamente injusto legar a elas um meio ambiente inóspito e uma sociedade em que as relações humanas não são nada menos que envenenadas. Espero que a rota trilhada por nós de uns tempos pra cá seja alterada a tempo e estas crianças possam viver num mundo melhor do que aquele em que viveram seus pais e avós.
O realismo mágico de Gabriel García Márquez e a literatura de cordel
A prosa de Gabriel García Márquez me remete à poesia da literatura de cordel que tive a felicidade de conhecer vasculhando os armários do antigo sítio de vovó nos meus dias de criança.
O sobrenatural, a onipresença da religião, as crendices, as assombrações e os mitos que permeiam o imaginário popular e ajudam a construir o realismo mágico do escritor colombiano guardam muitas semelhanças com os temas cantados pelos sertanejos nordestinos em suas rimas.
Talvez por isso o sertanejo aqui tenha lido quase sem pausa para tomar fôlego a história de uma marquesinha chamada Sierva María (também conhecida como Maria Mandinga (risos), mitômana por convicção e prazer, nascida de sete meses e dona de uma cabeleira de mais de dez palmos que só deveria ser cortada após seu casamento. Sierva María é mordida por um cão raivoso, mas no ambiente onde vicejam a ignorância e a repressão promovidas pela fé católica, é tida como possuída por demônios que precisam ser exorcizados. Sierva, branca, odiada pelos pais e deixada aos cuidados dos escravos, cresceu nas senzalas, falava iorubá e congo, usava colares de macumba e dançava como negra.
Maria Mandinga foi submetida a suplícios insuportáveis para qualquer menina de doze anos, porém os enfrentou com firmeza e resiliência, sucumbindo apenas ao amor que lhe era proibido.
O enredo, a narrativa e a fluidez da escrita me puseram em contato com minhas reminiscências, deslumbrado e com a certeza de que Sierva María existiu; contudo, mais que isso, Maria Mandinga será imortal enquanto houver em algum lugar desta América Latina alguém que se deixe enfeitiçar pela magia de Gabriel García Márquez e por literatura de cordel.
O sobrenatural, a onipresença da religião, as crendices, as assombrações e os mitos que permeiam o imaginário popular e ajudam a construir o realismo mágico do escritor colombiano guardam muitas semelhanças com os temas cantados pelos sertanejos nordestinos em suas rimas.
Talvez por isso o sertanejo aqui tenha lido quase sem pausa para tomar fôlego a história de uma marquesinha chamada Sierva María (também conhecida como Maria Mandinga (risos), mitômana por convicção e prazer, nascida de sete meses e dona de uma cabeleira de mais de dez palmos que só deveria ser cortada após seu casamento. Sierva María é mordida por um cão raivoso, mas no ambiente onde vicejam a ignorância e a repressão promovidas pela fé católica, é tida como possuída por demônios que precisam ser exorcizados. Sierva, branca, odiada pelos pais e deixada aos cuidados dos escravos, cresceu nas senzalas, falava iorubá e congo, usava colares de macumba e dançava como negra.
Maria Mandinga foi submetida a suplícios insuportáveis para qualquer menina de doze anos, porém os enfrentou com firmeza e resiliência, sucumbindo apenas ao amor que lhe era proibido.
O enredo, a narrativa e a fluidez da escrita me puseram em contato com minhas reminiscências, deslumbrado e com a certeza de que Sierva María existiu; contudo, mais que isso, Maria Mandinga será imortal enquanto houver em algum lugar desta América Latina alguém que se deixe enfeitiçar pela magia de Gabriel García Márquez e por literatura de cordel.
Realismo mágico e reminiscências de uma infância
Quase duas décadas atrás, em um fim de semana qualquer, estava eu na casa de uma de minhas tias maternas, aquela que pela proximidade física, bem como pelas conexões emocional e (por que não?) intelectual foi a mais presente durante meus primeiros anos.
Eu devia ter entre sete e nove anos, não posso afirmá-lo com exatidão, mas, por ter crescido num núcleo familiar altamente politizado, sabia (ou intuía?) que esta tia era progressista, possuía uma personalidade com tendência revolucionária, um quê de rebeldia, propensão à subversão e lutava com afinco pelo seu ideal de justiça. No meu raciocínio infantil pouco refinado, eu simplesmente a percebia como alguém “de esquerda”, sem qualquer julgamento de valor.
Recordo-me vagamente que assistíamos a um filme e do qual apenas duas cenas, eu viria a sabê-lo depois, ficaram gravadas com toda sua nitidez em um lugar recôndito na minha memória. Ambas retratavam o abuso sexual de uma personagem feminina pelo mesmo homem em dois momentos distintos: em sua infância e tempos mais tarde, já na idade adulta. As duas situações me causaram asco. A primeira delas, pelos sentimentos de impotência e aflição que a vulnerabilidade de uma criança e o contraste físico perante um adulto, principalmente do sexo masculino, podem+ despertar. A segunda, num contexto diferente, colocou-me em contato com a crueldade, a vingança, o ódio e a tortura.
Anos se passaram até que cai em minhas mãos o livro “La casa de los espíritus”, da aclamada escritora chilena Isabel Allende. O fascínio foi imediato pela escrita fluida e pelo estilo similar ao de Gabriel García Márquez, um de meus autores favoritos e grande expoente daquilo que se convencionou chamar “realismo mágico”.
Mentes intuitivas e personalidades sonhadoras são atraídas magneticamente pelo espiritualismo emanante a cada página e facilmente seduzidas pela excentricidade das situações e personagens de um livro de realismo mágico.
‘La casa de los espíritus’ é um romance sobre a passagem do tempo, o contato com o Além, a indignação contra as injustiças e misérias, a revolta contra as mais diversas formas de opressão (machismo, desigualdade social, autoritarismo etc), mas também sobre o ato de escrever como instrumento de busca do autoconhecimento e de enfrentamento dos demônios interiores que cada um de nós carrega consigo.
Existe um filme de 1993, que conta com a atuação de atrizes famosas como Meryl Streep e Winona Ryder, baseado nesta obra. Obviamente, mais de quatrocentas páginas não podem ser contadas em duas horas sem que muito do que é relevante se perca ou pareça desconectado e sem sentido. Inevitavelmente, são necessárias — e geralmente feitas — adaptações ao enredo, por vezes descaracterizando-o. Aqui estamos diante de um destes casos. Foi este o filme que vi há aproximadamente vinte anos em uma abafada tarde de domingo, do qual eu não lembrava sequer o nome, mas que havia marcado vividamente minha lembrança com aquelas fatídicas cenas.
Isabel Allende praticamente transforma a segunda metade do seu livro em um panfleto, abandonando quase por completo o realismo mágico, transformando-o em um “realismo cru”, ao retratar com maestria o ambiente sociopolítico que precedeu o golpe militar no Chile, no início da década de 1970, e ao descrever o horror das torturas e matanças que se seguiram à tomada de poder pelos militares.
Seu livro é uma ode à liberdade, ao amor livre, à resiliência das mulheres e um relato fiel do que pode acontecer quando as camadas mais abastadas de uma nação procuram manter seus privilégios a todo custo. Na busca pela perpetuação do statu quo e pelo antiquado lema “lei e ordem”, ver com bons olhos (ou até estimular) a ascensão das Forças Armadas ao poder, solapando a democracia, significa vender a alma ao diabo, com consequências funestas inclusive para aqueles que apoiam o golpe.
É possível inferir que a história se passa no Chile, ainda que a autora não cite o nome do país uma única vez, pelas peculiaridades históricas, mas seu pano de fundo é comum a qualquer país latino-americano, acostumados a quarteladas, neles incluído o Brasil de 1964. Com profunda tristeza, percebo que, mesmo tanto tempo depois, as sementes do autoritarismo e das soluções fáceis encontram terreno fértil em nosso país. Se não somos capazes de aprender com os erros do passado, que pelo menos a literatura nos liberte!
Eu devia ter entre sete e nove anos, não posso afirmá-lo com exatidão, mas, por ter crescido num núcleo familiar altamente politizado, sabia (ou intuía?) que esta tia era progressista, possuía uma personalidade com tendência revolucionária, um quê de rebeldia, propensão à subversão e lutava com afinco pelo seu ideal de justiça. No meu raciocínio infantil pouco refinado, eu simplesmente a percebia como alguém “de esquerda”, sem qualquer julgamento de valor.
Recordo-me vagamente que assistíamos a um filme e do qual apenas duas cenas, eu viria a sabê-lo depois, ficaram gravadas com toda sua nitidez em um lugar recôndito na minha memória. Ambas retratavam o abuso sexual de uma personagem feminina pelo mesmo homem em dois momentos distintos: em sua infância e tempos mais tarde, já na idade adulta. As duas situações me causaram asco. A primeira delas, pelos sentimentos de impotência e aflição que a vulnerabilidade de uma criança e o contraste físico perante um adulto, principalmente do sexo masculino, podem+ despertar. A segunda, num contexto diferente, colocou-me em contato com a crueldade, a vingança, o ódio e a tortura.
Anos se passaram até que cai em minhas mãos o livro “La casa de los espíritus”, da aclamada escritora chilena Isabel Allende. O fascínio foi imediato pela escrita fluida e pelo estilo similar ao de Gabriel García Márquez, um de meus autores favoritos e grande expoente daquilo que se convencionou chamar “realismo mágico”.
Mentes intuitivas e personalidades sonhadoras são atraídas magneticamente pelo espiritualismo emanante a cada página e facilmente seduzidas pela excentricidade das situações e personagens de um livro de realismo mágico.
‘La casa de los espíritus’ é um romance sobre a passagem do tempo, o contato com o Além, a indignação contra as injustiças e misérias, a revolta contra as mais diversas formas de opressão (machismo, desigualdade social, autoritarismo etc), mas também sobre o ato de escrever como instrumento de busca do autoconhecimento e de enfrentamento dos demônios interiores que cada um de nós carrega consigo.
Existe um filme de 1993, que conta com a atuação de atrizes famosas como Meryl Streep e Winona Ryder, baseado nesta obra. Obviamente, mais de quatrocentas páginas não podem ser contadas em duas horas sem que muito do que é relevante se perca ou pareça desconectado e sem sentido. Inevitavelmente, são necessárias — e geralmente feitas — adaptações ao enredo, por vezes descaracterizando-o. Aqui estamos diante de um destes casos. Foi este o filme que vi há aproximadamente vinte anos em uma abafada tarde de domingo, do qual eu não lembrava sequer o nome, mas que havia marcado vividamente minha lembrança com aquelas fatídicas cenas.
Isabel Allende praticamente transforma a segunda metade do seu livro em um panfleto, abandonando quase por completo o realismo mágico, transformando-o em um “realismo cru”, ao retratar com maestria o ambiente sociopolítico que precedeu o golpe militar no Chile, no início da década de 1970, e ao descrever o horror das torturas e matanças que se seguiram à tomada de poder pelos militares.
Seu livro é uma ode à liberdade, ao amor livre, à resiliência das mulheres e um relato fiel do que pode acontecer quando as camadas mais abastadas de uma nação procuram manter seus privilégios a todo custo. Na busca pela perpetuação do statu quo e pelo antiquado lema “lei e ordem”, ver com bons olhos (ou até estimular) a ascensão das Forças Armadas ao poder, solapando a democracia, significa vender a alma ao diabo, com consequências funestas inclusive para aqueles que apoiam o golpe.
É possível inferir que a história se passa no Chile, ainda que a autora não cite o nome do país uma única vez, pelas peculiaridades históricas, mas seu pano de fundo é comum a qualquer país latino-americano, acostumados a quarteladas, neles incluído o Brasil de 1964. Com profunda tristeza, percebo que, mesmo tanto tempo depois, as sementes do autoritarismo e das soluções fáceis encontram terreno fértil em nosso país. Se não somos capazes de aprender com os erros do passado, que pelo menos a literatura nos liberte!
Lincoln in the bardo
O que falar sobre o livro vencedor do Man Booker Prize 2017?
“Lincoln in the Bardo” não é apenas um must-read para adicionar à sua lista e não desapontar nas rodas de conversa sobre literatura mundo afora. Antes de mais nada, devo confessar algo: todo o hype que tem envolvido este livro desde seu lançamento é plenamente justificável.
George Saunders, já conhecido e reconhecido por seus contos, resolveu incursionar pelo mundo dos romances e o fez de forma magistral. Como se não bastasse escolher um tema de grande apelo pelo personagem histórico envolvido, Saunders subverteu o modelo tradicional de contar uma história e construiu um verdadeiro coro, tornando sua obra o que pode ser chamado de prosa teatral. Mais que isso, colocou em primeiro plano personagens habitualmente invisíveis. Como assim? É exatamente o que você pensou: fantasmas são os narradores e partícipes do que se desenrola numa fatídica noite de inverno de fevereiro de 1862.
Para contextualizar, vale a pena explicar em linhas gerais o que quer dizer bardo. Trata-se de um termo tibetano que designa o período vivenciado por um espírito logo após a morte do corpo e a sua futura reencarnação. Neste caso, não é o próprio Lincoln que o experiencia, mas seu filho, Willie. O enlutado e desolado presidente visita a sepultura onde jaz o corpo de Willie diversas vezes durante a noite buscando aplacar a pungente e insuportável dor que o aflige. No entanto, Lincoln nem ao menos imagina que ali mesmo, ao seu redor, centenas de fantasmas lastimável e comicamente apegados às suas vidas terrenas pregressas brigam, discutem, machucam uns aos outros e negam veementemente a sua inaceitável condição de “mortos”.
A exuberante humanidade destes espíritos desencarnados, mas presos ao seu passado, é o que torna a história profundamente tocante. Todos os seus defeitos e qualidades, memórias, angústias, momentos de alegria e prazer estão expostos de forma crua e, por vezes, exagerada. Os fantasmas sonham em voltar “àquele lugar de antes” para completar suas missões inacabadas, continuar amando, tomar conta de seus bens materiais ou mesmo para se vingar de quem outrora lhes infligiu sofrimento.
No além-túmulo, muitos deles acreditam que seu status social continua a valer, fazendo com que aqueles que experimentaram posições mais altas na hierarquia social se sintam ultrajados quando os sujeitos de classe inferior se recusam a exercer seus antigos papéis; da mesma forma, o instinto os estimula a replicar a mesma carcomida estrutura na sua nova realidade, o mundo dos “doentes” (shhh! a palavra “mortos” não deve jamais ser pronunciada!).
Ao caminhar pelas páginas de “Lincoln in the Bardo”, você se depara com a mais fina ironia e elegante sarcasmo, mas também com momentos de contemplação, reflexão e empatia pelas agruras de outrem. Como não ser compassivo com um pai desesperado ao ver partir um filho em tão tenra idade?
Por fim, os personagens-fantasmas encaram um grande dilema, digamos, existencial (risos): permanecer ad eternum no bardo, vivendo dia após dia uma caricatura do que provaram quando possuíam um corpo de carne e osso ou embarcar rumo ao desconhecido, ao “além-do-bardo”, algo que pode representar o paraíso ou o nada?
“Lincoln in the Bardo” é uma experiência literária (e espiritual) instigante, intensa e imaginativa que nos faz pensar sobre a finitude da vida e o afinco arraigado à matéria.
“Lincoln in the Bardo” não é apenas um must-read para adicionar à sua lista e não desapontar nas rodas de conversa sobre literatura mundo afora. Antes de mais nada, devo confessar algo: todo o hype que tem envolvido este livro desde seu lançamento é plenamente justificável.
George Saunders, já conhecido e reconhecido por seus contos, resolveu incursionar pelo mundo dos romances e o fez de forma magistral. Como se não bastasse escolher um tema de grande apelo pelo personagem histórico envolvido, Saunders subverteu o modelo tradicional de contar uma história e construiu um verdadeiro coro, tornando sua obra o que pode ser chamado de prosa teatral. Mais que isso, colocou em primeiro plano personagens habitualmente invisíveis. Como assim? É exatamente o que você pensou: fantasmas são os narradores e partícipes do que se desenrola numa fatídica noite de inverno de fevereiro de 1862.
Para contextualizar, vale a pena explicar em linhas gerais o que quer dizer bardo. Trata-se de um termo tibetano que designa o período vivenciado por um espírito logo após a morte do corpo e a sua futura reencarnação. Neste caso, não é o próprio Lincoln que o experiencia, mas seu filho, Willie. O enlutado e desolado presidente visita a sepultura onde jaz o corpo de Willie diversas vezes durante a noite buscando aplacar a pungente e insuportável dor que o aflige. No entanto, Lincoln nem ao menos imagina que ali mesmo, ao seu redor, centenas de fantasmas lastimável e comicamente apegados às suas vidas terrenas pregressas brigam, discutem, machucam uns aos outros e negam veementemente a sua inaceitável condição de “mortos”.
A exuberante humanidade destes espíritos desencarnados, mas presos ao seu passado, é o que torna a história profundamente tocante. Todos os seus defeitos e qualidades, memórias, angústias, momentos de alegria e prazer estão expostos de forma crua e, por vezes, exagerada. Os fantasmas sonham em voltar “àquele lugar de antes” para completar suas missões inacabadas, continuar amando, tomar conta de seus bens materiais ou mesmo para se vingar de quem outrora lhes infligiu sofrimento.
No além-túmulo, muitos deles acreditam que seu status social continua a valer, fazendo com que aqueles que experimentaram posições mais altas na hierarquia social se sintam ultrajados quando os sujeitos de classe inferior se recusam a exercer seus antigos papéis; da mesma forma, o instinto os estimula a replicar a mesma carcomida estrutura na sua nova realidade, o mundo dos “doentes” (shhh! a palavra “mortos” não deve jamais ser pronunciada!).
Ao caminhar pelas páginas de “Lincoln in the Bardo”, você se depara com a mais fina ironia e elegante sarcasmo, mas também com momentos de contemplação, reflexão e empatia pelas agruras de outrem. Como não ser compassivo com um pai desesperado ao ver partir um filho em tão tenra idade?
Por fim, os personagens-fantasmas encaram um grande dilema, digamos, existencial (risos): permanecer ad eternum no bardo, vivendo dia após dia uma caricatura do que provaram quando possuíam um corpo de carne e osso ou embarcar rumo ao desconhecido, ao “além-do-bardo”, algo que pode representar o paraíso ou o nada?
“Lincoln in the Bardo” é uma experiência literária (e espiritual) instigante, intensa e imaginativa que nos faz pensar sobre a finitude da vida e o afinco arraigado à matéria.
Entre o niilismo e a chacota
O poço da desmoralização da política - e, por tabela, da democracia – brasileira parece não ter fundo. Depois de quase quatro anos de uma revelação aterradora após a outra sobre o que nossos representantes eleitos fazem a portas fechadas, Fernando Collor, um ex-presidente extremamente impopular e que teve seu mandato interrompido dois anos antes do fim, anuncia que mais uma vez concorrerá à presidência da República.
Quando o escárnio parecia ter atingido seu limite com a constatação de que dos dois candidatos líderes nas pesquisas, um deles está às voltas com o judiciário, prestes a ser condenado em segunda instância e ser impedido de concorrer, e o outro é talvez a figura mais abjeta, ignorante, imbecil, agressiva e perigosa que esteve sob os holofotes nos últimos tempos.
Palavras e expressões como terra arrasada, caos e fim da linha podem soar pessimistas, e até mesmo exageradas, mas são os termos que merecem ser utilizados para descrever o atual cenário. Fica quase impossível não ceder ao niilismo.
A política é elemento imprescindível e constitutivo da vida em sociedade, enquanto a democracia, embora imperfeita, ainda é a melhor forma de governo que já existiu. A descrença e a desconfiança dos brasileiros em relação aos nossos políticos e seus partidos se tornaram o tópico onipresente em qualquer conversa na fila do banco ou no transporte a caminho do trabalho. Ainda que seja salutar a aparente politização do povo brasileiro, o sentimento de ojeriza vai minando e enfraquecendo uma democracia ainda imatura. Há o alarmante perigo de se estender a repulsa pelos homens (políticos) à atividade (política), o que seria desastroso.
Neste contexto de percepção da política como seara da sujeira e da corrupção, como atividade imoral e indigna, a pré-candidatura de Fernando Collor vem corroborar a ideia de que a política brasileira se assemelha a um esquete histriônico de péssima qualidade. E de que forma a sociedade reage? Com memes, esse artigo da era digital que os brasileiros brilhante e compreensivelmente se especializaram em produzir, afinal a sagacidade de nosso povo encontrou na nossa política um material abundante.
É fundamental então buscarmos dissociar políticos e política, sob o risco de transformarmos a desesperança que sentimos em terreno fértil para o crescimento do(s) autoritarismo(s). Precisamos resgatar a seriedade inerente à política e relegar os fantasmas e cadáveres insepultos que insistem em nos assombrar ao seu verdadeiro lugar: o limbo.
sábado, 21 de janeiro de 2017
O INFERNO SÃO OS OUTROS, MAS O DIABO É VOCÊ
Um dos temas que exercem mais fascínio na cultura popular e que frequentemente rende momentos marcantes e reflexivos na literatura é o diálogo com o diabo. Tanto mais quando a querela vai além de uma simples conversa, resultando, dessa confabulação, um pacto. Não raro, em troca de um período de sucesso neste mundo, o interlocutor entrega - ou vende, segundo o imaginário popular - sua alma ao "dito cujo".
Dentre estes momentos literários, destaco dois: o diálogo entre Ivan Karamazov e o "demo" em 'Os Irmãos Karamazov', do russo Fiódor Dostoiévski, e o acordo entre Adrian Leverkühn e o "coisa ruim" no 'Doutor Fausto' do alemão Thomas Mann que, por sua vez, remete ao mais famoso pacto de todos: o 'Fausto', de Goethe.
O que há em comum entre estas passagens? Nelas, o diabo assume forma humana, é extremamente eloquente, inteligente, persuasivo, muito semelhante aos caracteres de Ivan e Adrian Leverkühn. É possível dizer que naqueles momentos de delírio (ou seriam realidade?) Ivan e Adrian miravam um espelho capaz de refletir apenas o lado obscuro de suas personalidades, tudo o que eles desejavam esconder. Por não reconhecerem em si características que consideravam indesejáveis, estes personagens as atribuíam ao demônio.
Como a vida imita a arte, é inevitável traçar paralelos entre Karamazov e Leverkühn, criações de mentes brilhantes, e os seres humanos de carne, osso e sentimentos. Buscar um bode expiatório em quem se possa descarregar culpas é demasiadamente humano. Junte-se a esse instinto, um ser sobrenatural e uma boa dose de misticismo, aliados a uma crença validada pelas tradições judaico-cristãs, chega-se então ao perfeito culpado de todos os males: Lúcifer, Mefistófeles, Belzebu ou seja lá que nome lhe deem.
A lógica é a seguinte: cometi algum crime? Estava possuído pelo diabo. Nada dá certo na minha vida? Deve ser por influência dele. No entanto, o aspecto mais intrigante desta relação entre o homem e a personificação do mal ocorre quando se buscam justificativas para o sucesso e a genialidade de outrem. "Ah! Ele (a) deve ter feito um pacto com o diabo!"
Percebo, com pesar, que essas alusões e maledicências são com certa preferência dirigidas a figuras femininas de sucesso. É como se todo o brilhantismo de uma mulher não pudesse originar-se de seu talento e esforço, mas de uma figura tradicionalmente tida como masculina (assim como o Deus abraâmico, mas isso fica para outra discussão).
Se, como nos ensinam os grandes autores, "aquele que não se deve chamar" é o lado mau e malquisto de cada um, é melhor tomar cuidado se na sua concepção de mundo há um espaço considerável para ele. Se habitualmente recorres a ele para justificar o mal no mundo, talvez haja algo errado contigo. Cada um carrega consigo um diabo à sua imagem e semelhança.
Alguém um dia disse que o inferno são os outros. Pode-se perfeitamente tomar a liberdade para adicionar: o diabo é você.
sábado, 13 de setembro de 2014
Pasadena, pré-sal e novas fontes de energia
O PT é tão simplista... Quer dizer que buscar utilizar outras fontes de energia é ser contra o futuro do Brasil? Enquanto o mundo inteiro busca energias limpas e renováveis, nós temos que continuar reféns dos combustíveis fósseis? Isso só prova a visão estratégica limitada do governo.
Estão tentando usar contra Marina essa história do pré-sal como fizeram com a história das privatizações e o PSDB e venceram três eleições manipulando e apelando para um falso nacionalismo canhestro.
Quem cai nesse discurso mal sabe que o PT faz todo esse esforço apenas para aparelhar as riquezas do nosso país e isso tem sido danoso demais. Basta ver o que tem sido feito com a Petrobras!
A refinaria de Pasadena está aí para mostrar o que eles fazem com o nosso patrimônio.
Você vai cair nessa armadilha outra vez?
Estão tentando usar contra Marina essa história do pré-sal como fizeram com a história das privatizações e o PSDB e venceram três eleições manipulando e apelando para um falso nacionalismo canhestro.
Quem cai nesse discurso mal sabe que o PT faz todo esse esforço apenas para aparelhar as riquezas do nosso país e isso tem sido danoso demais. Basta ver o que tem sido feito com a Petrobras!
A refinaria de Pasadena está aí para mostrar o que eles fazem com o nosso patrimônio.
Você vai cair nessa armadilha outra vez?
O real e as relações entre Presidente e Congresso
O partido do atraso lançou no horário eleitoral a ofensiva do medo contra Marina. Insinuou que por não ter atualmente a maioria no Congresso Nacional, a governabilidade de um possível governo de Marina seria inviável e conclamou os brasileiros a abandonarem os seus sonhos e voltarem à "realidade".
O fato é que a realidade tal qual o PT a apresenta é tudo o que vem sendo FORTEMENTE REJEITADO por grande parcela da população brasileira. Eles defenderam claramente que para governar é preciso fazer o jogo do toma-lá-dá-cá. Até parece que não estão entendendo o recado que a sociedade está mandando: NÃO aceitamos mais esse modo de fazer política baseado na divisão de cargos e orçamentos.
Marina não é Collor (esse sim aliado do PT e da Dilma) nem Jânio. Ela tem uma carreira política sólida e respeitada mesmo por seus adversários, construída após muitos anos de luta e serviços prestados à nossa democracia.
Quando a "realidade" passa a ser insuportável, é preferível apostar, mudar e acreditar que ela possa ser diferente. É o que está acontecendo neste momento: o Brasil quer construir uma nova realidade.
O fato é que a realidade tal qual o PT a apresenta é tudo o que vem sendo FORTEMENTE REJEITADO por grande parcela da população brasileira. Eles defenderam claramente que para governar é preciso fazer o jogo do toma-lá-dá-cá. Até parece que não estão entendendo o recado que a sociedade está mandando: NÃO aceitamos mais esse modo de fazer política baseado na divisão de cargos e orçamentos.
Marina não é Collor (esse sim aliado do PT e da Dilma) nem Jânio. Ela tem uma carreira política sólida e respeitada mesmo por seus adversários, construída após muitos anos de luta e serviços prestados à nossa democracia.
Quando a "realidade" passa a ser insuportável, é preferível apostar, mudar e acreditar que ela possa ser diferente. É o que está acontecendo neste momento: o Brasil quer construir uma nova realidade.
Estado laico?
Uma pena que no nosso presidencialismo de coalizão os candidatos tenham que se ajoelhar ou se curvar perante os líderes de igrejas evangélicas. Esta situação empobrece o debate, jogando-o para o obscurantismo e impede o avanço da agenda progressista.
Acredito que não se deveria nem dialogar com estes grupos, já que eles não propõem soluções para resolver os problemas da economia, melhorar a qualidade da educação, da saúde. Tudo o que eles desejam é exercer influência para impor seus dogmas, restringir direitos civis e liberdades individuais. Assim, eles ajudam a construir, ao lado dos ruralistas e tantos outros representantes de "lobbies" patéticos, o mosaico de figuras horripilantes que tem se tornado o nosso Congresso Nacional e este processo tem se acentuado a cada eleição que passa.
Não vejo solução no horizonte, uma vez que nesta nossa democracia incipiente as pessoas não conseguem separar muito bem a esfera privada daquilo que é de interesse público nem compreendem o conceito de laicidade.
Talvez o parlamentarismo pudesse ser uma opção, mas não estou certo disso...
Enquanto isso os políticos vão precisar peregrinar ao Templo de Salomão ou temer a ira de uma figura abjeta como Silas Malafaia. Pobre Brasil!
Acredito que não se deveria nem dialogar com estes grupos, já que eles não propõem soluções para resolver os problemas da economia, melhorar a qualidade da educação, da saúde. Tudo o que eles desejam é exercer influência para impor seus dogmas, restringir direitos civis e liberdades individuais. Assim, eles ajudam a construir, ao lado dos ruralistas e tantos outros representantes de "lobbies" patéticos, o mosaico de figuras horripilantes que tem se tornado o nosso Congresso Nacional e este processo tem se acentuado a cada eleição que passa.
Não vejo solução no horizonte, uma vez que nesta nossa democracia incipiente as pessoas não conseguem separar muito bem a esfera privada daquilo que é de interesse público nem compreendem o conceito de laicidade.
Talvez o parlamentarismo pudesse ser uma opção, mas não estou certo disso...
Enquanto isso os políticos vão precisar peregrinar ao Templo de Salomão ou temer a ira de uma figura abjeta como Silas Malafaia. Pobre Brasil!
O que "A Revolução dos Bichos" pode nos ensinar
Podemos traçar um paralelo entre o livro "A Revolução dos Bichos", do inglês George Orwell, e o atual quadro político brasileiro.
Em resumo, esta obra relata a história de um grupo de animais de uma fazenda no interior da Inglaterra que se sentia subjugado e maltratado pelos humanos. A partir de uma "revelação", o velho porco Napoleão, reconhecido por sua liderança entre os bichos, conclama-os a se rebelar contra esse domínio, buscando construir um futuro glorioso onde todos os bichos se ajudariam mutuamente e formariam uma comunidade na qual não haveria oprimidos e opressores. Após uma batalha, os bichos conseguem expulsar os humanos e assumir o controle da fazenda.
No entanto, os porcos, por se acharem mais inteligentes e legítimos representantes de todos os animais, resolveram impor a sua vontade, atribuindo a si mesmos uma série de privilégios, inclusive o de se instalar na antiga casa dos seus "donos". Os porcos foram paulatinamente construindo a sua própria verdade, moldando um discurso a fim de justificar sua posição, distorcendo os fatos e recriando o passado de acordo com uma visão que lhes beneficiasse. Os porcos utilizaram a propaganda política e abusaram da ingenuidade dos outros animais para exercerem seu poder. Quando as mentiras não eram suficientes para aplacar os questionamentos, logo eram convocados cães de guarda ferozes para expulsar ou exterminar os dissidentes. No fim das contas, os porcos acabaram prevalecendo, aliando-se aos humanos para horror e amargura dos demais bichos.
Lula (o velho porco Napoleão) chegou ao poder em 2002 prometendo um novo tempo de prosperidade e um governo dos trabalhadores. Ao assumir o comando do país, logo tratou de instalar seus companheiros (os demais porcos) nos principais postos para que pudessem sugar as riquezas que eram de todos (Petrobras e demais estatais). Para aplacar as massas, era necessário criar um inimigo (as supostas elites, sendo que os porcos eram quem agora compunham a nova elite) e reinventar ou apagar o passado (para Lula, o Brasil começou em 2003). Quando esta estratégia apresentasse sinais de desgaste, bastaria chamar a militância (os cães de guarda) para atacar dissidentes e supostos inimigos, vocalizando e reproduzindo as mentiras ditadas pela cúpula. No fim, os porcos (o PT) se juntaram aos humanos (banqueiros, empreiteiras, Renan, Maluf, Sarney, Barbalho, Collor) para espanto, decepção e indignação dos brasileiros que acreditaram no engodo (e dos que não acreditaram também).
Este livro foi lançado em 1945 e é uma sátira do stalinismo na velha URSS. Ainda bem que o estudo da história nos possibilita não reproduzir os mesmos erros do passado. A fome de poder do PT é implacável e o partido tem adotado as práticas mais abjetas e escusas para destruir seus adversários e se manter no poder. Conhecendo esta passagem, podemos buscar fazer diferente enquanto ainda temos essa possibilidade e impedir que esta farsa se repita aqui no Brasil. Eles ainda não prevaleceram.
Em resumo, esta obra relata a história de um grupo de animais de uma fazenda no interior da Inglaterra que se sentia subjugado e maltratado pelos humanos. A partir de uma "revelação", o velho porco Napoleão, reconhecido por sua liderança entre os bichos, conclama-os a se rebelar contra esse domínio, buscando construir um futuro glorioso onde todos os bichos se ajudariam mutuamente e formariam uma comunidade na qual não haveria oprimidos e opressores. Após uma batalha, os bichos conseguem expulsar os humanos e assumir o controle da fazenda.
No entanto, os porcos, por se acharem mais inteligentes e legítimos representantes de todos os animais, resolveram impor a sua vontade, atribuindo a si mesmos uma série de privilégios, inclusive o de se instalar na antiga casa dos seus "donos". Os porcos foram paulatinamente construindo a sua própria verdade, moldando um discurso a fim de justificar sua posição, distorcendo os fatos e recriando o passado de acordo com uma visão que lhes beneficiasse. Os porcos utilizaram a propaganda política e abusaram da ingenuidade dos outros animais para exercerem seu poder. Quando as mentiras não eram suficientes para aplacar os questionamentos, logo eram convocados cães de guarda ferozes para expulsar ou exterminar os dissidentes. No fim das contas, os porcos acabaram prevalecendo, aliando-se aos humanos para horror e amargura dos demais bichos.
Lula (o velho porco Napoleão) chegou ao poder em 2002 prometendo um novo tempo de prosperidade e um governo dos trabalhadores. Ao assumir o comando do país, logo tratou de instalar seus companheiros (os demais porcos) nos principais postos para que pudessem sugar as riquezas que eram de todos (Petrobras e demais estatais). Para aplacar as massas, era necessário criar um inimigo (as supostas elites, sendo que os porcos eram quem agora compunham a nova elite) e reinventar ou apagar o passado (para Lula, o Brasil começou em 2003). Quando esta estratégia apresentasse sinais de desgaste, bastaria chamar a militância (os cães de guarda) para atacar dissidentes e supostos inimigos, vocalizando e reproduzindo as mentiras ditadas pela cúpula. No fim, os porcos (o PT) se juntaram aos humanos (banqueiros, empreiteiras, Renan, Maluf, Sarney, Barbalho, Collor) para espanto, decepção e indignação dos brasileiros que acreditaram no engodo (e dos que não acreditaram também).
Este livro foi lançado em 1945 e é uma sátira do stalinismo na velha URSS. Ainda bem que o estudo da história nos possibilita não reproduzir os mesmos erros do passado. A fome de poder do PT é implacável e o partido tem adotado as práticas mais abjetas e escusas para destruir seus adversários e se manter no poder. Conhecendo esta passagem, podemos buscar fazer diferente enquanto ainda temos essa possibilidade e impedir que esta farsa se repita aqui no Brasil. Eles ainda não prevaleceram.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Estado de um partido só
Efeito de se manter um partido por tanto tempo no poder: o PT pôde mudar a composição do STF para torná-lo um tribunal agora com maioria pró-governo. Decisões que foram tomadas no julgamento do mensalão por outros ministros foram derrubadas hoje pelos novos magistrados. Em doze anos, além de aparelharem as estatais, terem buscado o controle do Congresso através da compra de parlamentares, conseguido maioria no Legislativo por meio de uma coalizão com amplo espectro ideológico baseada na troca de favores, agora eles também controlam o Judiciário! O Estado finalmente se fundiu com o partido, como era seu maior desejo.
O pior de tudo é saber que as perspectivas não são nada boas, uma vez que inexiste oposição real no Brasil; existe apenas um grupo incapaz de apontar os (claros) erros e defeitos do governo, cujo único objetivo é assumir o poder. Nosso país não precisa apenas de uma troca de bastão, com o risco de uma guinada à direita. Precisamos é de mudança na classe dirigente, novas ideias e, mais que tudo, um novo sistema político, com mais representatividade.
Já foram doze anos, com possibilidade de se tornarem 16 e mais... O Brasil não merece ter seu destino e futuro subjugados pelos interesses de um grupo.
O pior de tudo é saber que as perspectivas não são nada boas, uma vez que inexiste oposição real no Brasil; existe apenas um grupo incapaz de apontar os (claros) erros e defeitos do governo, cujo único objetivo é assumir o poder. Nosso país não precisa apenas de uma troca de bastão, com o risco de uma guinada à direita. Precisamos é de mudança na classe dirigente, novas ideias e, mais que tudo, um novo sistema político, com mais representatividade.
Já foram doze anos, com possibilidade de se tornarem 16 e mais... O Brasil não merece ter seu destino e futuro subjugados pelos interesses de um grupo.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Balanço das eleições 2012
Passada a euforia pela vitória ou a tristeza pela derrota sobrevirá o momento de reflexão a ser realizada pelos partidos e analistas políticos sobre o que saiu das urnas nestas eleições de 2012, avaliando quem saiu menor ou maior do último pleito, quais as influências dos resultados deste ano no jogo político para 2014 e o que o eleitorado brasileiro emitiu como mensagem para suas lideranças políticas.
Qualquer análise inicial não pode deixar de falar da vitória do PT na cidade de São Paulo após duas eleições. Embora o senso comum conceda todos os louros da vitória ao ex-presidente Lula pela construção da candidatura do seu ex-ministro da Educação desde sua concepção à execução exitosa, esta conclusão simplista pode ocultar o que de fato aconteceu na capital paulista. O resultado obtido por Fernando Haddad não foi fruto do encantamento dos paulistanos pelo candidato, suas propostas ou por seu partido; foi, antes de tudo, rejeição a José Serra, seja pelo desgaste do tucano ao ter se submetido ao crivo popular tantas vezes na última década, ou pela má avaliação da gestão Kassab, que Serra teve de carregar nos ombros durante toda o processo eleitoral. Boa parte do eleitorado paulistano continua a rechaçar o petismo e, mais ainda, o lulismo como forma de fazer política e de administrar a coisa pública. Apesar de se apresentar com ares de novo, uma coligação que conta com o apoio de Paulo Maluf, Marta Suplicy e Luiza Erundina (três ex-prefeitos) não pode ser considerada propriamente uma renovação. Afinal está dada a largada para a disputa ensandecida pelos cargos e postos na administração do maior orçamento do país. Enquanto isso, o atual prefeito da cidade, após ser demonizado na campanha, deve embarcar de vez na base governista como líder de uma legenda que possui quase 500 prefeitos, mais de 50 deputados e nenhum pudor em transitar entre os mais diversos campos e correntes políticas.
A vitória em São Paulo neutraliza as imensas perdas que o PT sofreu na maioria dos grandes centros. A legenda teve um desempenho pífio em Porto Alegre, foi derrotada pelo PSB em Belo Horizonte e Recife no primeiro turno e , numa disputa acirrada que deve deixar graves sequelas, perdeu a prefeitura de Fortaleza no segundo turno. Em Salvador, o candidato petista teve suas pretensões de ser prefeito adiadas por ACM Neto, agora um dos maiores expoentes da oposição. A conquista da capital baiana pelo DEM deve-se muito ao desgaste sofrido pelo governo do estado após greves de servidores públicos. Com isso, ao PT foram impostas duras derrotas nas três principais capitais nordestinas, região onde o partido conseguiu votações consagradoras nas três últimas eleições presidenciais. Quem vem conquistando esse espaço agora é o PSB.
Na região Norte, o PSDB conquistou a prefeitura das duas maiores e mais importantes capitais, Manaus e Belém. Em Manaus, o ex-senador Artur Virgílio Neto foi eleito a contragosto de Lula e Dilma, que se envolveram pessoalmente na disputa. O PSOL chegou ao poder em uma capital pela primeira vez com a eleição em Macapá, além de ter ido ao segundo turno em Belém, o que acaba comprovando o crescimento do partido, em ritmo lento, porém consistente e fiel à sua ideologia, à sua visão de mundo e ao seu jeito de fazer política. Resta aguardar para saber se o movimento persistirá e se espalhará para todo o país ou se foi um fenômeno localizado.
Num cômputo geral, em uma eleição marcada pela sopa de letrinhas devido ao elevado número de partidos que levaram ao menos uma prefeitura, o PSB foi o grande vencedor, chegando ao poder em capitais importantes e obtendo vitórias expressivas e emblemáticas sobre o PT. Ainda não está claro como o partido utilizará todo esse capital político: vai apenas vender caro o apoio à reeleição de Dilma Rousseff, irá alçar voo solo com Eduardo Campos como candidato a presidente ou, menos provável, irá aliar-se ao tucano Aécio Neves. O PT também saiu fortalecido e agora projeta conquistar o governo paulista para derrubar o último bastião do seu ferrenho adversário, o PSDB. Já este último acabou perdendo espaço nos grandes centros das regiões Sul e Sudeste, o que deve preocupar seu establishment e acender a luz amarela para as próximas eleições gerais; sua seção paulista sai derrotada, o que acaba abrindo caminho para Aécio Neves finalmente pleitear o cargo hoje ocupado por Dilma. O PMDB manteve o posto de partido com o maior número de prefeitos, contudo perdeu influência nas maiores cidades do país e deu mostras claras de que irá prosseguir atrelado ao projeto de poder do PT, tornando-se cada vez mais coadjuvante no cenário político nacional.
Qualquer análise inicial não pode deixar de falar da vitória do PT na cidade de São Paulo após duas eleições. Embora o senso comum conceda todos os louros da vitória ao ex-presidente Lula pela construção da candidatura do seu ex-ministro da Educação desde sua concepção à execução exitosa, esta conclusão simplista pode ocultar o que de fato aconteceu na capital paulista. O resultado obtido por Fernando Haddad não foi fruto do encantamento dos paulistanos pelo candidato, suas propostas ou por seu partido; foi, antes de tudo, rejeição a José Serra, seja pelo desgaste do tucano ao ter se submetido ao crivo popular tantas vezes na última década, ou pela má avaliação da gestão Kassab, que Serra teve de carregar nos ombros durante toda o processo eleitoral. Boa parte do eleitorado paulistano continua a rechaçar o petismo e, mais ainda, o lulismo como forma de fazer política e de administrar a coisa pública. Apesar de se apresentar com ares de novo, uma coligação que conta com o apoio de Paulo Maluf, Marta Suplicy e Luiza Erundina (três ex-prefeitos) não pode ser considerada propriamente uma renovação. Afinal está dada a largada para a disputa ensandecida pelos cargos e postos na administração do maior orçamento do país. Enquanto isso, o atual prefeito da cidade, após ser demonizado na campanha, deve embarcar de vez na base governista como líder de uma legenda que possui quase 500 prefeitos, mais de 50 deputados e nenhum pudor em transitar entre os mais diversos campos e correntes políticas.
A vitória em São Paulo neutraliza as imensas perdas que o PT sofreu na maioria dos grandes centros. A legenda teve um desempenho pífio em Porto Alegre, foi derrotada pelo PSB em Belo Horizonte e Recife no primeiro turno e , numa disputa acirrada que deve deixar graves sequelas, perdeu a prefeitura de Fortaleza no segundo turno. Em Salvador, o candidato petista teve suas pretensões de ser prefeito adiadas por ACM Neto, agora um dos maiores expoentes da oposição. A conquista da capital baiana pelo DEM deve-se muito ao desgaste sofrido pelo governo do estado após greves de servidores públicos. Com isso, ao PT foram impostas duras derrotas nas três principais capitais nordestinas, região onde o partido conseguiu votações consagradoras nas três últimas eleições presidenciais. Quem vem conquistando esse espaço agora é o PSB.
Na região Norte, o PSDB conquistou a prefeitura das duas maiores e mais importantes capitais, Manaus e Belém. Em Manaus, o ex-senador Artur Virgílio Neto foi eleito a contragosto de Lula e Dilma, que se envolveram pessoalmente na disputa. O PSOL chegou ao poder em uma capital pela primeira vez com a eleição em Macapá, além de ter ido ao segundo turno em Belém, o que acaba comprovando o crescimento do partido, em ritmo lento, porém consistente e fiel à sua ideologia, à sua visão de mundo e ao seu jeito de fazer política. Resta aguardar para saber se o movimento persistirá e se espalhará para todo o país ou se foi um fenômeno localizado.
Num cômputo geral, em uma eleição marcada pela sopa de letrinhas devido ao elevado número de partidos que levaram ao menos uma prefeitura, o PSB foi o grande vencedor, chegando ao poder em capitais importantes e obtendo vitórias expressivas e emblemáticas sobre o PT. Ainda não está claro como o partido utilizará todo esse capital político: vai apenas vender caro o apoio à reeleição de Dilma Rousseff, irá alçar voo solo com Eduardo Campos como candidato a presidente ou, menos provável, irá aliar-se ao tucano Aécio Neves. O PT também saiu fortalecido e agora projeta conquistar o governo paulista para derrubar o último bastião do seu ferrenho adversário, o PSDB. Já este último acabou perdendo espaço nos grandes centros das regiões Sul e Sudeste, o que deve preocupar seu establishment e acender a luz amarela para as próximas eleições gerais; sua seção paulista sai derrotada, o que acaba abrindo caminho para Aécio Neves finalmente pleitear o cargo hoje ocupado por Dilma. O PMDB manteve o posto de partido com o maior número de prefeitos, contudo perdeu influência nas maiores cidades do país e deu mostras claras de que irá prosseguir atrelado ao projeto de poder do PT, tornando-se cada vez mais coadjuvante no cenário político nacional.
sábado, 6 de outubro de 2012
Não vote 13 no Domingo
NÃO VOTE 13 NO DOMINGO!
Após quase quatro anos de uma administração turbulenta e conturbada, conclamo o maior expoente do Partido dos Trabalhadores em Juazeiro do Norte a fazer uma autocrítica e reconhecer que seu governo não foi, de longe, digno da confiança que lhe foi depositada maciçamente pelo povo desta cidade em Outubro de 2008.
Às vezes se faz necessário saber o momento exato de recolher as armas e tirar um tempo de reclusão para refletir o que foi feito até então e repensar alternativas, reinventar-se. É uma atitude de grandeza conseguir apontar os próprios erros, sem tentar justificá-los sempre alegando perseguições ou injustiças.
O primeiro governo petista em Juazeiro foi desastroso. Esteve por vários momentos à beira do colapso total, com acusações de corrupção, greves, luta direta entre prefeitura e servidores públicos, entre governo e sociedade, entre o gestor e a imprensa, níveis extremos de impopularidade e rejeição, chegando ao ponto de ter sido votada a cassação do prefeito na Câmara de Vereadores.
O fracasso perpassa pela falta de habilidade (ou falta de vontade) política do prefeito em dialogar com os professores culminando em duas longas greves que, certamente, ajudaram a erodir sua popularidade junto a um dos setores que marcadamente o apoiou em boa parte de sua trajetória política. Confiscar salários, limitar direitos, retroceder no plano de cargos e carreiras da classe, propagar aos quatro ventos inverdades sobre a remuneração dos profissionais da educação não é o que se pode chamar de atitude digna de governo dos trabalhadores.
Como se não bastasse, deixar a saúde municipal em frangalhos após fechar um hospital que, embora não fosse notoriamente reconhecido pela qualidade dos serviços prestados, ao menos prestava o mínimo de assistência a um povo tão carente de serviços de saúde os mais básicos. Com o encerramento das operações do Hospital Santo Inácio, o Hospital Regional do Cariri precisou assumir a demanda que foi deixada, acabando por fugir aos seus propósitos iniciais.
Durante a campanha, em vez de explicar à cidade os motivos de sua incompetência e ineficiência, Santana preferiu acusar uma suposta elite de perseguição e de entravar o desenvolvimento do seu projeto. Mais PT impossível. Que elite é essa? Por favor, gostaria de saber a resposta. Será aquela com quem ele se aliou em 2008 e que teve grande participação na sua eleição ou aquela com quem ele encontra-se coligado neste ano? De toda forma, qualquer que seja a resposta, a teoria de uma elite perseguindo um indefeso e inocente prefeito cai por terra quando se atesta a maleabilidade e capacidade deste de transitar por grupos políticos rivais e se submeter aos seus interesses em um espaço de tempo tão curto.
Outro alvo de Dr. Santana foi a Câmara dos Vereadores. Gostaria também de entender como equacionar essa conta, uma vez que apenas quatro vereadores constituíram realmente oposição à prefeitura, número insuficiente para transformar o Legislativo neste feroz adversário tão atacado em todos os discursos do prefeito-candidato. A atual legislatura é sim, em sua maior parte, repleta de aves de rapina que se preocupam exclusivamente em obter as melhores vantagens para si mesmas. Tanto que eles votaram a favor do Executivo no projeto de PCCR para os professores enviado pela prefeitura num dos episódios mais tristes deste nefasto mandato, para citar apenas um exemplo.
Não é com falácia, uma boca proferindo palavras bonitas, mas vazias de conteúdo e de comprovação na realidade, que os eleitores devem ser convencidos de sua capacidade de fazer um segundo mandato diferente. Juazeiro não se pode deixar ludibriar novamente pelo canto da sereia (ou pelo brilho da estrela, como preferirem) e reconduzir Santana de novo ao cargo de chefe do Executivo municipal. Àqueles que acreditam que o atual prefeito ainda pode fazer melhor por nossa cidade, peço-lhes que concedam ao ilustríssimo um retiro sabático. Aos que estão arrependidos de ter ajudado a elegê-lo, eis a oportunidade de reparar a escolha errada.
Obras de última hora, reformas de praças, inflação de números no horário eleitoral e ancoragem em programas do governo federal é pouco para recuperar imagem tão deteriorada. Em vez disso, eu preferia ler que a educação do meu município conseguiu atingir altos índices no IDEB, ou pelo menos não ver que a saúde da minha cidade ocupa um dos últimos lugares dentre os mais de cinco mil municípios brasileiros; que a minha cidade tem um transporte público de qualidade, valoriza espaços verdes e o Meio Ambiente, dá um destino adequado ao lixo produzido e caminha a passos largos na melhora de seus indicadores sociais.
Lamento ferir os brios da militância petista, porém um período na oposição fará bem a todos.
Após quase quatro anos de uma administração turbulenta e conturbada, conclamo o maior expoente do Partido dos Trabalhadores em Juazeiro do Norte a fazer uma autocrítica e reconhecer que seu governo não foi, de longe, digno da confiança que lhe foi depositada maciçamente pelo povo desta cidade em Outubro de 2008.
Às vezes se faz necessário saber o momento exato de recolher as armas e tirar um tempo de reclusão para refletir o que foi feito até então e repensar alternativas, reinventar-se. É uma atitude de grandeza conseguir apontar os próprios erros, sem tentar justificá-los sempre alegando perseguições ou injustiças.
O primeiro governo petista em Juazeiro foi desastroso. Esteve por vários momentos à beira do colapso total, com acusações de corrupção, greves, luta direta entre prefeitura e servidores públicos, entre governo e sociedade, entre o gestor e a imprensa, níveis extremos de impopularidade e rejeição, chegando ao ponto de ter sido votada a cassação do prefeito na Câmara de Vereadores.
O fracasso perpassa pela falta de habilidade (ou falta de vontade) política do prefeito em dialogar com os professores culminando em duas longas greves que, certamente, ajudaram a erodir sua popularidade junto a um dos setores que marcadamente o apoiou em boa parte de sua trajetória política. Confiscar salários, limitar direitos, retroceder no plano de cargos e carreiras da classe, propagar aos quatro ventos inverdades sobre a remuneração dos profissionais da educação não é o que se pode chamar de atitude digna de governo dos trabalhadores.
Como se não bastasse, deixar a saúde municipal em frangalhos após fechar um hospital que, embora não fosse notoriamente reconhecido pela qualidade dos serviços prestados, ao menos prestava o mínimo de assistência a um povo tão carente de serviços de saúde os mais básicos. Com o encerramento das operações do Hospital Santo Inácio, o Hospital Regional do Cariri precisou assumir a demanda que foi deixada, acabando por fugir aos seus propósitos iniciais.
Durante a campanha, em vez de explicar à cidade os motivos de sua incompetência e ineficiência, Santana preferiu acusar uma suposta elite de perseguição e de entravar o desenvolvimento do seu projeto. Mais PT impossível. Que elite é essa? Por favor, gostaria de saber a resposta. Será aquela com quem ele se aliou em 2008 e que teve grande participação na sua eleição ou aquela com quem ele encontra-se coligado neste ano? De toda forma, qualquer que seja a resposta, a teoria de uma elite perseguindo um indefeso e inocente prefeito cai por terra quando se atesta a maleabilidade e capacidade deste de transitar por grupos políticos rivais e se submeter aos seus interesses em um espaço de tempo tão curto.
Outro alvo de Dr. Santana foi a Câmara dos Vereadores. Gostaria também de entender como equacionar essa conta, uma vez que apenas quatro vereadores constituíram realmente oposição à prefeitura, número insuficiente para transformar o Legislativo neste feroz adversário tão atacado em todos os discursos do prefeito-candidato. A atual legislatura é sim, em sua maior parte, repleta de aves de rapina que se preocupam exclusivamente em obter as melhores vantagens para si mesmas. Tanto que eles votaram a favor do Executivo no projeto de PCCR para os professores enviado pela prefeitura num dos episódios mais tristes deste nefasto mandato, para citar apenas um exemplo.
Não é com falácia, uma boca proferindo palavras bonitas, mas vazias de conteúdo e de comprovação na realidade, que os eleitores devem ser convencidos de sua capacidade de fazer um segundo mandato diferente. Juazeiro não se pode deixar ludibriar novamente pelo canto da sereia (ou pelo brilho da estrela, como preferirem) e reconduzir Santana de novo ao cargo de chefe do Executivo municipal. Àqueles que acreditam que o atual prefeito ainda pode fazer melhor por nossa cidade, peço-lhes que concedam ao ilustríssimo um retiro sabático. Aos que estão arrependidos de ter ajudado a elegê-lo, eis a oportunidade de reparar a escolha errada.
Obras de última hora, reformas de praças, inflação de números no horário eleitoral e ancoragem em programas do governo federal é pouco para recuperar imagem tão deteriorada. Em vez disso, eu preferia ler que a educação do meu município conseguiu atingir altos índices no IDEB, ou pelo menos não ver que a saúde da minha cidade ocupa um dos últimos lugares dentre os mais de cinco mil municípios brasileiros; que a minha cidade tem um transporte público de qualidade, valoriza espaços verdes e o Meio Ambiente, dá um destino adequado ao lixo produzido e caminha a passos largos na melhora de seus indicadores sociais.
Lamento ferir os brios da militância petista, porém um período na oposição fará bem a todos.
sábado, 15 de setembro de 2012
Não ao voto proporcional
Em anos eleitorais sempre volta à tona o debate acerca da justiça do nosso sistema eleitoral quando se fala nas vagas a serem ocupadas no Legislativo, sejam elas para a Câmara de Vereadores, Assembleias estaduais ou Câmara Federal. O voto proporcional adotado no Brasil permite que candidatos que receberam menos votos possam se eleger em detrimento de outros que foram mais votados e com isso surjam várias distorções, que podem ser desde a chegada ao poder de políticos rejeitados pelo povo até a falta de legitimidade de boa parte dos vereadores e deputados.
Um dos pontos a se pensar é a alternativa de que muitos partidos e coligações lançam mão para tentar, de certa forma, ludibriar os eleitores ao lançar políticos muito conhecidos ou até mesmo celebridades, artistas como puxadores de votos a fim de superar facilmente o quociente eleitoral e angariar assim o maior número possível de vagas. Com isso, candidatos que foram escolhidos por uma parcela ínfima dos cidadãos aptos a votar podem ter passe garantido para ingressar no Legislativo e ajudar a definir os rumos da vida de toda a população.
Por outro lado, sabe-se que em nosso país as alianças são construídas de forma heterogênea, baseada não em afinidades ideológicas, mas meramente por conveniências e divisão de cargos. Votar em um candidato pode acabar ajudando a colocar no poder outro representante que tem visão política absolutamente distinta daquele que o eleitor escolheu.
As consequências que o voto proporcional acarreta, como podemos atestar legislatura após legislatura, têm sido funestas. Está claro que o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o nepotismo e outros vocábulos tão conhecidos do cotidiano político nacional não são decorrentes exclusivamente do sistema proporcional, mas certamente são exacerbados por ele e pelas facilidades que ele impõe.
Um novo sistema no qual os mais votados fossem de fato os eleitos poderia constituir uma nova alternativa para tentar corrigir estes desvios. Não se fala aqui em listas previamente oferecidas pelos partidos políticos a serem submetidas ao crivo popular. Como nossas instituições partidárias se assemelham mais a uma Torre de Babel onde nem todos falam a mesma língua nem se entendem, o eleitor daria um tiro no escuro. A solução mais justa seria dividir as localidades de acordo com o número de habitantes e definir quantas vagas cada uma delas teria no legislativo municipal, estadual e federal. Assim, os políticos mais votados em cada localidade seriam os que realmente assumiriam os postos, dando-lhes a legitimidade necessária.
Porém, quem se habilita a realizar essa reforma? Os legisladores que se beneficiam com esta situação ou ela tem que partir da consciência da sociedade acerca desse assunto? Podemos suscitar esse debate para impedir que deputados e vereadores eleitos com poucas centenas de votos num universo de milhares e milhares de eleitores decidam por todos nós.
Um dos pontos a se pensar é a alternativa de que muitos partidos e coligações lançam mão para tentar, de certa forma, ludibriar os eleitores ao lançar políticos muito conhecidos ou até mesmo celebridades, artistas como puxadores de votos a fim de superar facilmente o quociente eleitoral e angariar assim o maior número possível de vagas. Com isso, candidatos que foram escolhidos por uma parcela ínfima dos cidadãos aptos a votar podem ter passe garantido para ingressar no Legislativo e ajudar a definir os rumos da vida de toda a população.
Por outro lado, sabe-se que em nosso país as alianças são construídas de forma heterogênea, baseada não em afinidades ideológicas, mas meramente por conveniências e divisão de cargos. Votar em um candidato pode acabar ajudando a colocar no poder outro representante que tem visão política absolutamente distinta daquele que o eleitor escolheu.
As consequências que o voto proporcional acarreta, como podemos atestar legislatura após legislatura, têm sido funestas. Está claro que o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o nepotismo e outros vocábulos tão conhecidos do cotidiano político nacional não são decorrentes exclusivamente do sistema proporcional, mas certamente são exacerbados por ele e pelas facilidades que ele impõe.
Um novo sistema no qual os mais votados fossem de fato os eleitos poderia constituir uma nova alternativa para tentar corrigir estes desvios. Não se fala aqui em listas previamente oferecidas pelos partidos políticos a serem submetidas ao crivo popular. Como nossas instituições partidárias se assemelham mais a uma Torre de Babel onde nem todos falam a mesma língua nem se entendem, o eleitor daria um tiro no escuro. A solução mais justa seria dividir as localidades de acordo com o número de habitantes e definir quantas vagas cada uma delas teria no legislativo municipal, estadual e federal. Assim, os políticos mais votados em cada localidade seriam os que realmente assumiriam os postos, dando-lhes a legitimidade necessária.
Porém, quem se habilita a realizar essa reforma? Os legisladores que se beneficiam com esta situação ou ela tem que partir da consciência da sociedade acerca desse assunto? Podemos suscitar esse debate para impedir que deputados e vereadores eleitos com poucas centenas de votos num universo de milhares e milhares de eleitores decidam por todos nós.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Humilhados e Ofendidos, de Dostoiévski
Nas quatro partes desta magnífica obra, Dostoiévski faz com que duas histórias, que por si mesmas seriam objeto de dois romances distintos não menos esplêndidos, cruzem-se e se interliguem de tal forma que o resultado torna o livro inesquecível e deixa uma impressão profunda.
Em uma das ramificações da história, o narrador-personagem Ivan Petróvitch nos conta sobre a sua relação com a família Ikhméniev, composta pelo patriarca Nikolai e sua mulher Anna Andreyevna, bem como o fruto da relação do casal, a querida e doce Natasha.
A família vivia em um ambiente harmônico permeado por amor, cumplicidade e afeto no pacato interior da Rússia até que uma tragédia se abate sobre eles. O inescrupuloso príncipe Valkovski, dono das terras de que Nikolai tomava conta, acusa-o de desonestidade no trato com seus negócios. Junta-se a esta acusação o surgimento de boatos na vizinhança de que Natasha teria seduzido o ingênuo filho de Valkovski, o inocente e por vezes leviano Aliocha.
Nikolai embarca para Petersburgo com sua família a fim de juntar condições para defender-se das calúnias impostas pelo príncipe. Embora a relação com Valkovski esteja deteriorada, os Iknhméniev continuam a receber Aliocha com honras e convivas. Porém, para piorar a situação do orgulhoso homem, sua filha acaba se apaixonando pelo filho do príncipe, saindo de casa e deixando o pai aterrado, humilhado e ofendido em sua dignidade. Ele não poderia suportar tamanha afronta ainda mais por se tratar do filho de seu algoz.
Durante este tempo, Ivan já residia em Petersburgo onde tinha levado a cabo seus estudos e já havia adquirido certa fama como escritor. Inesperadamente, ao procurar um novo apartamento para alugar, Ivan acaba se envolvendo com um senhor taciturno e misterioso que falece pouco tempo depois. Ivan se interessa pela história, aluga o apartamento onde ele residia e aguarda a aparição de parentes do velho. Uma menina completamente compenetrada e absolutamente temerosa surge procurando notícias sobre seu avô.
A partir daí desenrola-se uma trama densa e quanto mais Ivan escava coisas mais escabrosas vêm à tona. Ele se comove pela história de sofrimento de Nelli(apelido de Elena, a pequena garotinha) e resgata a criança das mãos da malvada Búbnova, com quem ela morava desde a morte de sua mãe.
Ivan se divide entre cuidar de Nelli e socorrer Natasha, sua paixão platônica desde os tempos de criança. Aliocha se mostra cada vez mais volúvel e indeciso. Ele passa o tempo todo percorrendo o trajeto entre a mansão da condessa, com cuja filha seu pai exige que ele se case, e a casa da sua devotada Natasha.
Aos poucos, Natasha percebe que Aliocha está mais ligado à amável, inteligente e bondosa filha da condessa. Natasha entende que a separação é inevitável e está disposta a abrir mão de sua felicidade pela de Aliocha, tamanho o seu amor. No entanto, antes disso, o malvado príncipe Valkovski consegue atingi-la em sua honra ao fazer uma indecente proposta: para afogar suas mágoas ela poderia cair nos braços de um lascivo conde, amigo de Valkovski.
Dois fatos concorrem para a reaproximação entre o pai ofendido e a filha ultrajada: a partida de Aliocha com a condessa para Moscou e o emocionado relato de Nelli, a pequena órfã, filha de uma mulher com uma história similar à de Natasha e que morreu miserável, sem o perdão do pai. Quando Nikolai decide ir pedir perdão à filha, esta adentra sua casa e os dois caem nos braços um do outro, num momento sublime de reconciliação.
Além do fascinante enredo, a construção psicológica dos personagens é impressionante. Alguns deles carregam em si a mais convicta altivez, uma incondicional honestidade e corações incrivelmente bondosos, enquanto outros são vis, levianos e repulsivos. Os diálogos entre os personagens são um espetáculo à parte, fazendo com que o leitor possa sentir junto com eles naquele momento e tão precisos que nos levam ao local dos acontecimentos. Cada nova situação é surpreendente e imprevisível e o desfecho traz uma abnegação quase sagrada.
Dostoiévski conseguiu se tornar um dos maiores escritores da história sem pedantismo, mas também sem subestimar a inteligência dos seus leitores. A sua forma de escrever é fluida e logo de cara estabelece uma relação íntima com o leitor. O cenário para suas histórias está no século XIX, mas elas são universais e com isso podem ser lidas, compreendidas e sentidas em qualquer época ou cultura.
Em uma das ramificações da história, o narrador-personagem Ivan Petróvitch nos conta sobre a sua relação com a família Ikhméniev, composta pelo patriarca Nikolai e sua mulher Anna Andreyevna, bem como o fruto da relação do casal, a querida e doce Natasha.
A família vivia em um ambiente harmônico permeado por amor, cumplicidade e afeto no pacato interior da Rússia até que uma tragédia se abate sobre eles. O inescrupuloso príncipe Valkovski, dono das terras de que Nikolai tomava conta, acusa-o de desonestidade no trato com seus negócios. Junta-se a esta acusação o surgimento de boatos na vizinhança de que Natasha teria seduzido o ingênuo filho de Valkovski, o inocente e por vezes leviano Aliocha.
Nikolai embarca para Petersburgo com sua família a fim de juntar condições para defender-se das calúnias impostas pelo príncipe. Embora a relação com Valkovski esteja deteriorada, os Iknhméniev continuam a receber Aliocha com honras e convivas. Porém, para piorar a situação do orgulhoso homem, sua filha acaba se apaixonando pelo filho do príncipe, saindo de casa e deixando o pai aterrado, humilhado e ofendido em sua dignidade. Ele não poderia suportar tamanha afronta ainda mais por se tratar do filho de seu algoz.
Durante este tempo, Ivan já residia em Petersburgo onde tinha levado a cabo seus estudos e já havia adquirido certa fama como escritor. Inesperadamente, ao procurar um novo apartamento para alugar, Ivan acaba se envolvendo com um senhor taciturno e misterioso que falece pouco tempo depois. Ivan se interessa pela história, aluga o apartamento onde ele residia e aguarda a aparição de parentes do velho. Uma menina completamente compenetrada e absolutamente temerosa surge procurando notícias sobre seu avô.
A partir daí desenrola-se uma trama densa e quanto mais Ivan escava coisas mais escabrosas vêm à tona. Ele se comove pela história de sofrimento de Nelli(apelido de Elena, a pequena garotinha) e resgata a criança das mãos da malvada Búbnova, com quem ela morava desde a morte de sua mãe.
Ivan se divide entre cuidar de Nelli e socorrer Natasha, sua paixão platônica desde os tempos de criança. Aliocha se mostra cada vez mais volúvel e indeciso. Ele passa o tempo todo percorrendo o trajeto entre a mansão da condessa, com cuja filha seu pai exige que ele se case, e a casa da sua devotada Natasha.
Aos poucos, Natasha percebe que Aliocha está mais ligado à amável, inteligente e bondosa filha da condessa. Natasha entende que a separação é inevitável e está disposta a abrir mão de sua felicidade pela de Aliocha, tamanho o seu amor. No entanto, antes disso, o malvado príncipe Valkovski consegue atingi-la em sua honra ao fazer uma indecente proposta: para afogar suas mágoas ela poderia cair nos braços de um lascivo conde, amigo de Valkovski.
Dois fatos concorrem para a reaproximação entre o pai ofendido e a filha ultrajada: a partida de Aliocha com a condessa para Moscou e o emocionado relato de Nelli, a pequena órfã, filha de uma mulher com uma história similar à de Natasha e que morreu miserável, sem o perdão do pai. Quando Nikolai decide ir pedir perdão à filha, esta adentra sua casa e os dois caem nos braços um do outro, num momento sublime de reconciliação.
Além do fascinante enredo, a construção psicológica dos personagens é impressionante. Alguns deles carregam em si a mais convicta altivez, uma incondicional honestidade e corações incrivelmente bondosos, enquanto outros são vis, levianos e repulsivos. Os diálogos entre os personagens são um espetáculo à parte, fazendo com que o leitor possa sentir junto com eles naquele momento e tão precisos que nos levam ao local dos acontecimentos. Cada nova situação é surpreendente e imprevisível e o desfecho traz uma abnegação quase sagrada.
Dostoiévski conseguiu se tornar um dos maiores escritores da história sem pedantismo, mas também sem subestimar a inteligência dos seus leitores. A sua forma de escrever é fluida e logo de cara estabelece uma relação íntima com o leitor. O cenário para suas histórias está no século XIX, mas elas são universais e com isso podem ser lidas, compreendidas e sentidas em qualquer época ou cultura.
Nova enquete no blog
Nesta semana, a FIFA disse que os preparativos para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, estavam mais adiantados do que aqueles para a de 2014, aqui no Brasil.
Uma vez que o país soube que seria sede da próxima Copa em 2007, você acha que se o governo fosse comandado por outra pessoa ou por outro partido nós estaríamos com obras mais avançadas?
Uma vez que o país soube que seria sede da próxima Copa em 2007, você acha que se o governo fosse comandado por outra pessoa ou por outro partido nós estaríamos com obras mais avançadas?
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A greve dos policiais no Ceará e a sociedade repressora
Está na hora de repensar uma sociedade na qual policiais são mais importantes do que professores e médicos, por exemplo. Um sociedade que se mostra completamente vulnerável e refém de sua própria máquina repressora. Onde as palavras "coibir", "oprimir" e "proibir" são mais valorizadas e até certo ponto necessárias do que "educar" e "cuidar".
A greve dos policiais, em pouquíssimos dias, parou o Ceará, enquanto que as de profissionais da educação e da saúde se arrastaram durante meses sem que causassem tanto clamor popular e sem a mesma erosão na popularidade de um governador que está num partido dito socialista, mas que de socialismo só tem a letra S na sigla.
Acredito que para uma sociedade ser considerada verdadeiramente justa e igualitária e para que ela forneça o mínimo de qualidade de vida para seus componentes, ela não deve se valer mais da repressão e opressão em detrimento da construção de cidadania, nas escolas, e da prestação de cuidados aos necessitados, pelos profissionais de saúde e organizações sociais.
Enquanto nós seres humanos precisarmos ter alguém sempre à espreita, na vigília para que não cometamos delitos e enquanto não conseguirmos controlar nossos instintos animalescos, violentos e selvagens é sinal de que estamos no caminho errado, muito distantes de viver numa sociedade ideal.
PS: Uma vez que o que está escrito acima é algo distante da realidade, continuemos descendo o pau no CIDitador incompetente.
A greve dos policiais, em pouquíssimos dias, parou o Ceará, enquanto que as de profissionais da educação e da saúde se arrastaram durante meses sem que causassem tanto clamor popular e sem a mesma erosão na popularidade de um governador que está num partido dito socialista, mas que de socialismo só tem a letra S na sigla.
Acredito que para uma sociedade ser considerada verdadeiramente justa e igualitária e para que ela forneça o mínimo de qualidade de vida para seus componentes, ela não deve se valer mais da repressão e opressão em detrimento da construção de cidadania, nas escolas, e da prestação de cuidados aos necessitados, pelos profissionais de saúde e organizações sociais.
Enquanto nós seres humanos precisarmos ter alguém sempre à espreita, na vigília para que não cometamos delitos e enquanto não conseguirmos controlar nossos instintos animalescos, violentos e selvagens é sinal de que estamos no caminho errado, muito distantes de viver numa sociedade ideal.
PS: Uma vez que o que está escrito acima é algo distante da realidade, continuemos descendo o pau no CIDitador incompetente.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Homenagem a Larissa
O ano de 2011 está acabando. Foi um ano de muitas mudanças de atitude e pensamento na minha vida, na maneira como enxergo as coisas e os acontecimentos e de reflexões (realmente e não é clichê de fim de ano!). Aqui vai uma homenagem a uma pessoa muito querida que perdi durante esta caminhada. Que Deus esteja contigo!
"E então veio a alvorada. A aurora despontou com todas as suas cores. O sol surgiu para iluminar as mentes e aquecer os corações de todos que fossem capazes de enxergá-lo. Iluminar através de sua lucidez, sensatez, retidão e equilíbrio. Mas não havia em si apenas racionalidade. Pelo contrário: Larissa era emoção, era o pulsar intenso e constante do coração, espalhando calor, alegria e, acima de tudo, amor aos que permitissem sentirem-se tocados por ele.
Temos a impressão de ter sido uma passagem curta. E de fato foi. Mas isso se deve à sua notável capacidade de fazer sentirmo-nos bem quando diante de si, capacidade de provocar nossos sentimentos e emoções ao mesmo tempo em que os sentia e compartilhava-os junto conosco. Larissa nos acostumou mal, no bom sentido.
Porém não sejamos egoístas. O sol também pode(e deve) brilhar para outras almas, levar-lhes conforto, ajuda, cura. A sua luz agora se estende pela infinidade do Universo. Não nos abandonou, obviamente. Ainda podemos senti-la; para isso, basta usar a força do pensamento, esse instrumento que todos os espíritos possuem para se expressar, que nos foi legado, em toda Sua bondade, pelo Criador. Quando necessitarmos e clamarmos, prontamente nos atenderá.
A dor e a angústia podem ainda permanecer por muito tempo devido à nossa incapacidade de compreender os desígnios de Deus, no entanto o dia chegará em que nos reencontraremos e desfrutaremos de toda a felicidade, alegria e amor, mas desta vez sem o temor e o risco de separações ou viagens inesperadas.
Larissa estará sempre em nossos pensamentos, corações e orações, pois possuía, como poucos, o dom de cativar os sentimentos mais nobres até nas almas mais indóceis.
Queremos, neste momento, agradecê-la por nos ter permitido viver tantos momentos memoráveis e agradecer a Deus por ter concedido esta dádiva a criaturas ainda tão imperfeitas. Fica a certeza de que teremos toda uma eternidade para estar contigo, Larissa, e isto acalenta nossos corações.
Um ‘até breve’ cheio de saudade..."
"E então veio a alvorada. A aurora despontou com todas as suas cores. O sol surgiu para iluminar as mentes e aquecer os corações de todos que fossem capazes de enxergá-lo. Iluminar através de sua lucidez, sensatez, retidão e equilíbrio. Mas não havia em si apenas racionalidade. Pelo contrário: Larissa era emoção, era o pulsar intenso e constante do coração, espalhando calor, alegria e, acima de tudo, amor aos que permitissem sentirem-se tocados por ele.
Temos a impressão de ter sido uma passagem curta. E de fato foi. Mas isso se deve à sua notável capacidade de fazer sentirmo-nos bem quando diante de si, capacidade de provocar nossos sentimentos e emoções ao mesmo tempo em que os sentia e compartilhava-os junto conosco. Larissa nos acostumou mal, no bom sentido.
Porém não sejamos egoístas. O sol também pode(e deve) brilhar para outras almas, levar-lhes conforto, ajuda, cura. A sua luz agora se estende pela infinidade do Universo. Não nos abandonou, obviamente. Ainda podemos senti-la; para isso, basta usar a força do pensamento, esse instrumento que todos os espíritos possuem para se expressar, que nos foi legado, em toda Sua bondade, pelo Criador. Quando necessitarmos e clamarmos, prontamente nos atenderá.
A dor e a angústia podem ainda permanecer por muito tempo devido à nossa incapacidade de compreender os desígnios de Deus, no entanto o dia chegará em que nos reencontraremos e desfrutaremos de toda a felicidade, alegria e amor, mas desta vez sem o temor e o risco de separações ou viagens inesperadas.
Larissa estará sempre em nossos pensamentos, corações e orações, pois possuía, como poucos, o dom de cativar os sentimentos mais nobres até nas almas mais indóceis.
Queremos, neste momento, agradecê-la por nos ter permitido viver tantos momentos memoráveis e agradecer a Deus por ter concedido esta dádiva a criaturas ainda tão imperfeitas. Fica a certeza de que teremos toda uma eternidade para estar contigo, Larissa, e isto acalenta nossos corações.
Um ‘até breve’ cheio de saudade..."
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